terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DEFEITO DE FÁBRICA


Defeito de fábrica

O “Facebook” anda me dando linha. Ou dando gás. No meio de tanto besteirol, acabo encontrando pérolas que dão o que pensar. Uma caríssima amiga, Dani Facholli, compartilhou um engraçado cartum: diversas mulheres, todas idênticas, bonitas, jovens, o cabelo irrepreensivelmente penteado ( e necessariamente liso)  coloridas em tons róseos, com um enorme código de barras na testa. Atrever-me-ia a dizer que são loiras, não pela piada preconceituosa, mas porque ainda hoje o padrão de princesinha é o nórdico europeu.  Cada uma das multigêmeas segurava um acessório de maquiagem. No meio delas, bem à frente, em preto e branco, há uma jovem trajada casualmente, os cabelos escuros em desalinho. Ela não é feia, mas obviamente se destaca pelo visual despojado, sem compromisso. Ela lê um livro. Na testa, em vez de código de barras, há um papel, afixado com fita adesiva onde lê-se: “defeito de fábrica”. Achei fenomenal! Além de bem humorado, adorei a mensagem. Postei meu comentário para a Dani e fui ler as outras postagens. Para meu espanto, algumas pessoas criticaram o cartum.  De forma geral, as (os) reclamantes diziam que aquilo era preconceito contra a beleza e vaidade femininas. Que nem toda mulher bonita é burra e nem toda feia é inteligente. Concordo integralmente com o postulado, mas não em relação ao cartum. Eu fiz uma leitura totalmente diferente: no meu olhar, o enfoque não reside na questão da beleza X inteligência.  Interpretei a mensagem como uma crítica aos “modismos”, ao escravismo dos padrões do que é belo, e, o principal, crítica à futilidade X consistência. Este, para mim, é o ponto central. E parabéns ao cartunista, infelizmente não há assinatura no desenho para eu poder creditar neste texto.
Não há mal algum em ser vaidosa(o). Acho que é uma virtude se cuidar. Pessoalmente, sou extremamente vaidosa.  Adoro perfumes, tenho uma bela coleção de paletas e pincéis para maquiagem, vivo lutando contra o peso, tentando buscar a boa forma. Invejo Angelina Jolie, Scarlet Johansson, Kate Beckinsale, Luiza Brunet (para mim, eterna musa).  Não vivemos só de pensar. O nosso cérebro habita acima de um corpo. Mas aí é que está: o corpinho tem que obedecer ao cérebro e não à coletividade, à moda, ao consumismo.  Embora eu admire e inveje a boa forma ( e os modelitos Givenchy) da Angelina, Scarlett ou da Luíza, eu não quero me tornar nenhuma delas, mesmo porque isso é impossível. Somos únicos. Tampouco vou contrair uma dívida no banco ou assaltar uma loja na 5th Avenue  ( aqui em São Paulo, talvez a Daslu, mas ... nhé... 5h Avenue é melhor.) para ter marcas famosas. Francamente, além de ser fútil e potencialmente perigoso à minha vida, eu nem teria onde usar um modelo Yves Saint Laurent com uma bolsa Gucci e sapatos Prada. A primeira dificuldade seria em *caber*  em um vestido que é feito para mulheres com 1m70 e 50 quilos. A segunda seria ter coragem de sair à rua com peças tão valiosas para acabar assaltada. Ou passar ridículo. Alguém se imagina indo para o supermercado num lamê da Dior, de ônibus?
Todo mundo sonha com coisas boas, coisas chiques. Imagino que uma criança da Somália deve achar que comer todo dia é o “crème de la crème”, por exemplo. O pobre do sem teto que dorme na frente do Fórum aqui da cidade deve achar um luxo dormir numa cama após um banho de – veja só – água quente.  Exageros à parte, todos temos sonhos de consumo. O meu é uma viagem à Europa, de onde eu posso trazer um kit completo da Lancôme, à preço justo.  O do meu marido deve ser uma coleção de quadros do Miró; telas feitas à mão, sob encomenda, pinceis e tintas da melhor qualidade. Tem gente que sonha com uma Ferrari e por aí vai. Isso não é pecado e até faz bem. O mal é quando esses sonhos se tornam o alvo e o motor de uma obsessão, de uma compulsão que nada detém, nem a ética. Aí surgem os corruptos, que já esqueceram o que é ética. Moral? O que é isso? Quando começamos a substituir o essencial pelo conspícuo, aí a coisa fede, ainda que seja a perfume francês.  É aí que surgem as dívidas ou, no pior caso, a ética e a moral saltam pela janela e começamos a fazer qualquer coisa pelo ter e pelo parecer, em vez de simplesmente ser.
                O cartum mencionado me evoca isso, mas à frente há a questão da padronização ( que não deixa de ser ferramenta do consumismo) e da futilidade, em especial a feminina. A meu ver, o que o desenho ataca não é a vaidade, mas o seu exagero e o deslocamento que causa uma mulher que não siga o padrão a ponto de ser considerada um defeito de fábrica. Não, o mundo não mudou.  As sufragistas e feministas certamente conseguiram nos tirar da Idade de Pedra. Já podemos votar, trabalhar, até ganhar mais que os homens ( dependendo do cargo e do empregador). O problema é que o pensamento social ainda me parece Neandertal. Sob a máscara da “liberdade sexual” subjaz uma ferida escondida. Tem muita, muita moderninha por aí que se gaba de ter beijado 16 por noite e de poder fazer sexo com qualquer um e a qualquer hora, mas que inveja a amiga bem casada, que pode até não fazer sexo todo dia, mas dorme abraçada com o seu amado e, quando vão pra cama, fazem amor junto com sexo. As amigas mal casadas são a desculpa perfeita para a moderna – será que eu devia dizer mal comida? Não sei. –  anunciar aos quatro ventos o quanto é feliz por estar livre, leve e solta. Livre? Onde, se quando ela vai pra balada bate a preocupação com o vestido, o sapato, a maquiagem, o perfume, o penteado, a cor da unha. Leve? Como, se o peso da concorrência que ela vai encontrar a deixa à beira de um ataque de nervos que a leva a explodir o cartão de crédito no salão, na massagista, no pilates, no cirurgião plástico? Solta? De que forma, se a prisão a um padrão de beleza cada vez mais rigoroso a leva a loucuras como serrar costelas para diminuir a cintura, injetar silicone para turbinar os seios ou fazer cirurgia para retirar o que o padrão diz que é excesso.  A última invenção da “moda” é extrair o dedo mindinho do pé para diminuir o tamanho e tornar o pé mais “harmonioso”. Eu acho que essa última deve ser manobra de alguma marca de calçados.
                Enquanto isso, tem aquelas que vem com defeito de fábrica. Que acham a Angelina Jolie linda, mas não caçam o Brad Pitt na balada e preferem investir na tese de mestrado em vez da nova coleção da Chanel. E óbvio que isso é preocupante e visto como um defeito. Essas mulheres não se veem como acessórios masculinos, não se sentem na obrigação de trocar de cor de cabelo para parecer com a ninfeta “globete” do momento, questionam quando o cara enrola, quando mente, reclamam se o futebol, a cerveja e a farra deixam apenas 10% de tempo pra ela. No mínimo, ela quer o meio a meio. E quer o direito de sair com as suas amigas pra se divertir enquanto ele enche a cara com os amigos. Ela adora os peitorais e o “tanquinho”  do Thor e do Wolverine da mesma forma que ele fica secando, sem discrição, a bunda das gostosas que anunciam sua marca de cerveja favorita.  Ela não exige casamento e filhos, mas quer compromisso, companheirismo. Ela não joga o cabelo pro lado e vai retocar o batom quando o namorado começa a falar sobre a crise econômica ou sobre a última publicação da Cia das Letras. Isso se ela der sorte de encontrar um homem antenado. Se for um resquício de Conan- o-Bárbaro o cara periga levar uma cortada ou gelada federal ou ficar de pé, horas, tentando decifrar a última frase que ela disse, porque desconhece o que é sarcasmo.  
Em suma: esse tipo perigoso de mulher pensante dá trabalho. Não dá pra manipular, pra cornear, pra enrolar. Não dá pra dizer “Eu fui pra cama com ela, mas é você que eu amo”. Ainda que a dama em questão (elas são todas damas. Não conheço uma mulher verdadeiramente inteligente que goste de descer barraco) esteja seriamente apaixonada e comprometida, chega uma hora em que o afrodisíaco da paixão começa a perder o efeito e Miss Defeito põe saia justa no gajo em questão: “Por que a gente nunca sai sexta nem sábado à noite?”  “Porque o jogo do timão é mais importante que o meu aniversário?”  “Como assim, lavar suas cuecas? Você não meu filho. Nem que fosse.”  “Ué, você não ia pra cervejada com o pessoal da facul? Eu estou com as meninas aqui na praia.” “ Você não disse que hoje ia visitar a sua tia doente? Como é que a gente se encontra aqui na festinha do Tito?” “Desculpa, querido, mas eu não vou pagar a conta sozinha, nem pôr gasolina no seu carro.”  O cara, que a essa altura está com os neurônios derretendo ( Eles não tem mais que a gente? Uns a menos não vão fazer diferença), não compreende porque aquela mulher não é igual as outras, porque faz tanta pergunta, porque insiste em conversar com ele, em fazer faculdade, discutir política, a relação do dois. Ela faz piadas que ele e seus amigos do bar não entendem. Só pode ser defeito de fábrica. Ele cogita ligar para o Procon, mas desiste e termina o relacionamento ou some que nem o desenho do Leão da Montanha. Saída estratégica pela direita!
Eu vim com defeito de fábrica. Demorou para eu entender que isso é bom, pois tudo que o ser humano tenta é viver em grupo e ser aceito por ele. Hoje agradeço a Deus que me mandou da fábrica com esse “vício irreparável”, pois inteligência não tem reparo. Não é possível ficar burro. Ainda bem que eu não tenho que lavar, no tanque, cueca nem macacão sujo de graxa de marido que está assistindo ao Faustão, estirado no sofá, criticando minha celulite em comparação com as dançarinas, ostentando uma indecente barriga de chope e macarrão com molho que ele derramou pelo chão que ia sobrar pra eu limpar.  Também agradeço por não ser a amante eterna do executivo que jura que vai largar a mulher, mas precisa de um tempo, bem como não ser a esposa desse mesmo homem, fingindo não ver que ele chega cada vez mais tarde durante a semana, não sentir o perfume diferente nas camisas de seda, afinal, ele paga as contas do meu cartão de crédito, como eu vou viver sem a grana dele?
Por sorte, também existem homens com defeito de fábrica.  O filósofo Roberto Carlos acaba de decantá-lo em “ Esse cara sou eu”. É o homem que liga no dia seguinte, que se preocupa se você some, nem que seja por um diazinho só. O homem que lhe pinta quadros e lhe faz poesias. Se não é artista, lhe manda poesias que emprestou do Drummond, do Quintana, Neruda. Dá flores e presentes fora de hora, sabe o que você gosta, respeita sua opinião, ouve o que você fala, interage, não tem ciúme das suas amigas, como você não tem dos amigos dele, apoia suas decisões, alerta quando você vai fazer bobagem, estimula seus projetos, vibra com o seu sucesso, para o total assombro dos machos bem fabricados, que não compreendem de que planeta veio tal otário.  Sim, também há homens com defeito de fábrica. Estão por aí. Tenham fé. Eu casei com um deles. 

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